Dois anos da enchente no RS: entenda por que buscas físicas a 23 desaparecidos se encerraram
29/04/2026
(Foto: Reprodução) Dois anos depois da enchente que deixou 185 mortos, o que ainda falta mudar no RS?
Desde maio de 2024, quando a força da água destruiu cidades inteiras no Rio Grande do Sul, 23 pessoas permanecem oficialmente desaparecidas. A última atualização da Defesa Civil do Estado é de agosto de 2025, somando 185 mortos em decorrência da tragédia climática.
Passados mais de 700 dias, as buscas físicas por essas pessoas já não acontecem mais, já que não surgiram novos vestígios. A investigação, no entanto, permanece aberta.
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Dois anos depois, RS está mais preparado? Veja o que mudou
Segundo o Corpo de Bombeiros, as operações de procura não continuam porque os meios disponíveis foram esgotados e não há novas informações — a corporação fez buscas por terra, ar, água, montanhas de entulhos e com cães farejadores.
Os bombeiros explicam que esse tipo de busca pode ser retomado apenas se surgirem indícios concretos sobre possíveis locais onde as vítimas possam estar.
"A partir de um certo tempo, onde não temos mais informações novas, e se esgotaram os meios, elas acabam. Podem retornar quando surgem novas informações", informa o Corpo de Bombeiros Militar do RS.
Buscas por desaparecidos na enchente de 2024
Polícia diz que casos continuam abertos
O delegado Mário Souza, diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, esclarece que, apesar do encerramento das buscas físicas no terreno, as investigações da Polícia Civil não foram encerradas.
Segundo ele, há uma diferença entre o trabalho operacional feito pelos bombeiros e o acompanhamento policial dos casos.
"As buscas fisicamente no local, com pessoas cavando, máquinas, cães, não estão acontecendo agora. Mas o caso continua aberto para a Polícia Civil. As buscas quanto investigação, denúncias que podem chegar, informações, isso continua em aberto, e é constante sim", esclarece.
De acordo com Souza, a polícia permanece atenta a qualquer informação nova que possa levar ao encontro de alguma das pessoas desaparecidas. Caso surja um indício concreto, as buscas devem ser retomadas.
Cheia do Rio Taquari no Rio Grande do Sul durante enchente de 2024
Diego Vara/Reuters
Chance de sobreviventes é remota
O delegado reconhece que, com o passar do tempo, as chances de encontrar sobreviventes diminuem significativamente.
"É claro que quanto mais o tempo passa, por óbvio, a chance de a gente encontrar a pessoa com vida fica mais remota", comenta.
A principal hipótese é de que os corpos tenham sido encobertos pelas mudanças no terreno provocadas pela força da enchente. Ainda assim, Souza afirma que a polícia não deve desistir enquanto os casos não forem esclarecidos.
Por que os desaparecidos não são considerados mortos?
A ausência de corpos e de registros materiais concretos faz com que a situação dessas vítimas permaneça indefinida do ponto de vista legal.
Segundo o delegado Mario Souza, não é possível declarar a morte dessas pessoas sem provas materiais que confirmem o óbito.
"A gente não pode declarar que a pessoa morreu, porque nós não temos provas cabais disso. Existem grandes possibilidades, mas não cabe à área criminal fazer isso", comenta.
Ele destaca que já houve, em outras situações, casos de pessoas inicialmente dadas como desaparecidas que foram localizadas com o passar do tempo.
O exemplo mais recente relacionado à enchente ocorreu em agosto de 2025, mais de um ano após a tragédia, quando a Defesa Civil confirmou a identificação de uma vítima.
A confirmação foi possível após a aplicação de protocolos que envolveram o trabalho do Instituto-Geral de Perícias (IGP) e da Polícia Civil, permitindo esclarecer o caso.
Infográfico detalha números da enchente de 2024 no Rio Grande do Sul
Arte/g1
Lista dos desaparecidos da enchente de 2024:
No último ano, a reportagem solicitou à Defesa Civil e à Secretaria de Segurança Pública mais detalhes sobre os desaparecidos, além dos nomes e cidades (veja lista completa abaixo). Contudo, ambas as entidades informaram que esses dados estão protegidos pela Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).
Histórias inacabadas: o que dizem as famílias
Desaparecidos da enchente do Rio Grande do Sul em maio de 2024
Arquivo pessoal
Agudo (1): William da Silva Ramos
Bento Gonçalves (4): Carine Milani, Isabel Velere Antonello Gallon, Lourdes Helena Lazarini e Nelsa Faccin Gallon
Caxias do Sul (1): Doceliria Lourenço da Silva
Cruzeiro do Sul (4): Diana Alves Meirelles, Fabricio Adriano Wendt, Jorge Lauri Rodrigues e Valdelirio Farias do Amaral
Encantado (2): Bernadete Marques da Silva e César Gilmar das Chagas
Estrela (1): Andre Dutra
Lajeado (3): João Luiz Maurante, Gladis Elisabeth da Silva e Alexânder Júnior da Silva
Marques de Souza (1): Clair Teresinha Bergmann
Poço das Antas (1): Vanderlei da Rosa
Porto Alegre (1): Diulnei Silva Corrêa
Relvado (1): Leandro da Rocha
Roca Sales (2): Elirio Brino e Erica Brino
São Leopoldo (1): Carlos Eduardo Lassakoski dos Santos
Bote usado para realizar as buscas por desaparecidos em Bento Golçalves (RS)
Fábio Tito/g1
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