AVC não acontece só ‘de repente’: o que pode desencadear um evento horas antes dos sintomas

  • 10/04/2026
(Foto: Reprodução)
Uso recreativo de drogas pode dobrar risco de AVC, alertam estudos “Foi porque ele ficou nervoso? Porque comeu demais? Porque fez esforço?” Essas são algumas das perguntas mais comuns feitas por familiares à equipe médica depois de um AVC —e, por muito tempo, a resposta da medicina parecia simples: não existe um motivo imediato, mas sim um acúmulo de fatores ao longo dos anos, como pressão alta, colesterol elevado e diabetes. Esse entendimento continua válido, mas já não explica tudo. Hoje, especialistas reconhecem que, na maioria dos casos, o AVC surge da combinação entre uma vulnerabilidade construída ao longo do tempo e um gatilho agudo —que pode atuar minutos, horas ou dias antes do evento. Um processo lento que se manifesta de forma súbita Essa mudança de entendimento aparece também na literatura científica mais recente. Em artigo publicado na revista Nature Reviews Cardiology, pesquisadores defendem que infarto, AVC e estenoses arteriais precisam ser vistos menos como resultado de um bloqueio que evolui de forma linear e mais como eventos que surgem da interação entre vulnerabilidade vascular prévia e fatores precipitantes agudos. O neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e pós-doutor pela Universidade de São Paulo (USP), descreve esse entendimento como a mistura de um "processo lento e um evento abrupto". “Os fatores de risco vão atuando silenciosamente ao longo dos anos, fragilizando os vasos. Em determinado momento, um gatilho atua e o evento acontece de forma súbita, em minutos ou horas”, afirma. Ele usa uma analogia simples para explicar o fenômeno: é como encher um copo d’água gota a gota até que uma última gota faz tudo transbordar. Na prática, isso significa que raramente existe uma causa única. Reprodução/TV Globo O que são os “gatilhos” do AVC Segundo o especialista, fatores de risco crônicos —como hipertensão, diabetes, tabagismo e colesterol alto— “preparam o terreno” ao longo dos anos. Já os gatilhos são eventos imediatos que podem precipitar o AVC naquele momento específico. “Na maioria das vezes, não existe uma causa isolada, mas sim a combinação entre vulnerabilidade prévia e um fator desencadeante”, diz. E um ponto importante: o gatilho, sozinho, geralmente não seria suficiente para causar o problema em alguém saudável. Ele atua sobre um organismo já fragilizado. Em quanto tempo o risco aumenta Uma das principais mudanças nesse entendimento é perceber que o risco pode subir rapidamente —e em diferentes janelas de tempo. Alguns gatilhos atuam em minutos, como um pico de estresse ou de pressão arterial. Outros podem agir ao longo de horas, como esforço físico intenso ou consumo excessivo de álcool. Já situações inflamatórias, como infecções, podem elevar o risco por dias ou até semanas. “Uma forte emoção pode desencadear um evento de forma aguda. Já uma infecção pode aumentar o risco ao longo de dias, por causa da inflamação sistêmica”, explica Picarelli. Esse efeito de curto prazo já foi observado em estudos. Um trabalho clássico publicado em 2004 na revista Neurology mostrou que cerca de 4 em cada 10 pacientes relataram exposição a pelo menos um possível gatilho —como emoção intensa, esforço físico ou refeição pesada— nas duas horas anteriores ao AVC. Os gatilhos mais comuns Na prática clínica, alguns fatores aparecem com mais frequência como possíveis desencadeantes: estresse emocional intenso; esforço físico súbito, especialmente em pessoas sedentárias; consumo excessivo de álcool; infecções, como gripe ou Covid-19; calor extremo e desidratação. Esse tipo de associação também aparece em pesquisas recentes. Um estudo com adultos jovens publicado em 2023 na revista Neurology identificou fatores como exercício vigoroso, atividade sexual, febre, infecções e uso de drogas como possíveis gatilhos para o evento. No caso do estresse, por exemplo, o mecanismo é conhecido: há ativação do sistema nervoso simpático, com aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, além de maior instabilidade vascular. Mas o especialista faz um alerta: “Os pacientes tendem a superestimar o papel do estresse isolado. Na maioria das vezes, ele atua sobre um organismo já vulnerável”, afirma. E situações do dia a dia? Outras situações comuns também entram nessa lógica, embora nem sempre com o peso que as pessoas imaginam. Relação sexual, por exemplo, não causa AVC em pessoas saudáveis, mas pode funcionar como gatilho em casos específicos, como em pacientes com aneurismas ou alterações vasculares. “Não é o evento em si, mas o contexto do paciente”, diz o médico. O mesmo raciocínio vale para refeições muito pesadas. Há mecanismos plausíveis —como inflamação, alterações hormonais e maior tendência à coagulação— que podem ocorrer nas horas seguintes à ingestão, embora a evidência científica ainda não seja robusta. Jovens e idosos: o risco não é igual O perfil dos gatilhos também varia conforme a idade. Nos idosos, o AVC costuma estar ligado ao acúmulo de doenças crônicas ao longo da vida, como hipertensão, diabetes e aterosclerose. Já em pacientes mais jovens, os gatilhos podem ter um papel mais evidente, especialmente quando associados a condições específicas, como malformações vasculares, distúrbios de coagulação ou doenças cardíacas. Fatores como privação de sono, festas frequentes e uso de drogas recreativas também entram nesse cenário. Adobestock O que as pessoas entendem errado Um dos principais desafios é a forma como o evento é interpretado. Na prática, muitos pacientes e familiares associam o AVC a um episódio pontual —uma discussão, um esforço ou um exagero. “É comum observar uma valorização excessiva de gatilhos imediatos, enquanto os fatores crônicos acabam sendo negligenciados”, explica Picarelli. Ou seja: o gatilho pode até estar presente, mas quase sempre atua sobre um processo que já vinha acontecendo há anos. O que muda na prevenção Essa nova forma de entender o AVC amplia também a forma de prevenir. Controlar a pressão arterial, colesterol e diabetes continua sendo essencial —e é a base da prevenção. Mas, além disso, especialistas defendem uma abordagem mais ampla, que inclui reduzir a exposição a gatilhos, especialmente em pessoas de maior risco. Isso envolve manter uma rotina regular de sono, evitar consumo excessivo de álcool, cuidar da hidratação, tratar infecções e manejar situações de estresse. “Prevenir é muito mais eficaz do que tratar. O AVC pode deixar sequelas importantes, mesmo quando o tratamento é bem-sucedido”, afirma o neurocirurgião. Quando procurar ajuda O principal sinal de alerta é o início súbito de sintomas neurológicos. Entre os mais comuns estão: fraqueza ou perda de força em um lado do corpo dificuldade para falar ou compreender perda súbita da visão tontura intensa ou desequilíbrio dor de cabeça súbita e muito forte “A regra é simples: surgiu de repente, é suspeito de AVC até prova em contrário”, alerta Picarelli. Nesses casos, a orientação é buscar atendimento médico imediatamente —porque, no AVC, cada minuto conta.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/04/10/avc-nao-acontece-so-de-repente-o-que-pode-desencadear-um-evento-horas-antes-dos-sintomas.ghtml


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